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A CAB (Coordenação Anarquista Brasileira) e o “movimento sindical de intenção revolucionária”
Article mis en ligne le 8 avril 2019
”Nas mentes de alguns de nossos companheiros, o sindicalismo está se tornando uma nova doutrina e ameaçando o anarquismo em sua própria existência. No entanto, mesmo que esteja associado ao epíteto desnecessário de revolucionário, o sindicalismo é, e nunca será, nada mais do que um movimento legal e conservador, sem outro objectivo acessível – e ainda assim ! – do que a melhoria das condições de trabalho.”
A CAB (Coordenação Anarquista Brasileira) e o “movimento sindical de intenção revolucionária”
Penso que isso é suficiente para desqualificar Malatesta como um “sindicalista revolucionário”. Mas há mais. Associar Neno Vasco e Malatesta na mesma visão do sindicalismo é absolutamente impossível. Entre todos os traços característicos do sindicalismo revolucionário está a ideia de que o sindicato operário é o grupo essencial, o órgão específico da luta de classes e o núcleo reorganizador da sociedade futura. Esta ideia remonta à Primeira Internacional, encontra-se em Bakunin e nos militantes que lhe eram próximos, constitui a própria base do sindicalismo revolucionário, encontra-se na carta dos Amiens da CGT. Mas é uma ideia à qual Malatesta se opôs categoricamente – o que mostra o quanto ele se afastou do bakuninismo. É neste sentido que eu penso que se Malatesta pode ser incluído no conceito de “sindicalismo de intenção revolucionária”, então estamos diante de um conceito indeterminado que pode significar tudo e seu oposto... Outra passagem do texto da Coordenação Anarquista Brasileira chamou minha atenção. Este texto “reivindica a tradição do Sindicalismo Revolucionário”. No entanto, o Caderno de Formação Sindical afirma que “Na atual conjuntura, seria mais próximo do que tem sido chamado também por sindicato de resistência” (p. 12) Compreendo que os companheiros sintam necessidade de fazer esta clarificação, mas parece-me inútil. Na verdade, o próprio fundamento do sindicalismo revolucionário está na afirmação de que o movimento é simultaneamente defensivo e ofensivo: hoje os trabalhadores lutam para melhorar as suas condições de vida (ou seja, resistem à deterioração das suas condições de vida) e amanhã vão reorganizar a sociedade emancipada. Esta é a ideia fundamental encontrada na Carta de Amiens da CGT, adotada em 1906: “El Congreso precisa, en los puntos siguientes, esta afirmación teórica: A passagem sublinhada é, de certo modo, o coração da doutrina sindicalista revolucionária, mas deve-se notar que Malatesta se opôs categoricamente a esta ideia.. Tenho a impressão de que os companheiros da CAB estão relutantes em falar de “sindicalismo revolucionário” porque a expressão “revolucionário” lhes parece desproporcional considerando os meios de ação à sua disposição no atual equilíbrio de poder. Isto é o que eu entendo quando leio que “o termo ’revolucionário’ hoje pode soar estranho, por parecer prepotente demais diante de uma atuação que nos conduz a certas limitações no campo prático.” (p. 12.) Referindo-se ao “sindicalismo de intenção revolucionária”, parecem ter a impressão de serem mais realistas. Mas ao fazê-lo, negligenciam um facto essencial, nomeadamente que o sindicalismo revolucionário tem uma função reivindicativa/defensiva, mas também uma função ofensiva/construtiva, e que se um dos dois aspectos domina num dado momento, é apenas circunstancial. É óbvio que no momento no Brasil, e em qualquer outro lugar, é o aspecto defensivo que domina, mas justamente por isso, é importante insistir no aspecto construtivo, pois é esse aspecto construtivo que proporciona um projeto, um ideal para o futuro que pode interessar o povo. Kropotkin disse que a raiva causa motins, só a esperança leva à revolução. É vital não diluir, não atenuar o conceito de sindicalismo revolucionário, dando-lhe o qualificador de “intenção” que soa um pouco como um vago desejo. Um último ponto: o sindicalismo revolucionário pertence à história do movimento operário brasileiro, tem sido uma tendência histórica do movimento operário brasileiro da qual os ativistas de hoje devem se orgulhar. Rejeitar este termo a favor de outro que exprime apenas uma diluição da doutrina é, na minha opinião, insultar os revolucionários que, há cem anos, lutaram e por vezes morreram sob a sua bandeira. René Berthier 18/10/2018 __________________ 1. Caderno de formação sindical // n° 01, Coordenação Anarquista Brasileira – CAB) https://anarquismo.noblogs.org/files/2017/09/Caderno-de-Formação-Sindical-da-CAB-FINAL.pdf 2. Malatesta, Discurso no Congresso Internacional Anarquista em Amesterdão. A citação é a do livro de Maurizio Antonioli e Ariane Miéville, Anarchisme & syndicalisme : le Congrès anarchiste international d’Amsterdam (1907) (Anarquismo e Sindicalismo: o Congresso Internacional Anarquista em Amsterdã) Rennes : Nautilus ; Paris : Ed. du Monde Libertaire 1997. Il y a des variantes à cette citation selon les éditions. Há variações desta citação de acordo com as edições. 3. Neno Vasco, Concepção Anarquista do Sindicalismo. 4. https://elsalariado.info/2016/06/21/la-carta-de-amiens-1906/ |