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René Berthier

“Seria Kropotkin um teórico do sindicalismo revolucionário ?”

Introdução. – Considerações metodológicas

cel-gl@orange.fr

Article mis en ligne le 17 avril 2022
dernière modification le 18 avril 2022

par Eric Vilain

O texto a seguir é uma introdução provisória a um estudo que publiquei no monde-nouveau.net, que acabei retirando porque o achei insatisfatório. Espero ser capaz de carregar uma versão revisada do texto novamente.

Se alguém fizesse a pergunta: “Foi Kropotkin um teórico do sindicalismo revolucionário?”, seria necessário antes de tudo definir o que é o sindicalismo revolucionário. Em seguida, devem ser definidos os critérios para atribuir essa qualificação a um autor. Aqui surge um problema metodológico: seja se considera o sindicalismo revolucionário como uma doutrina e um conjunto de práticas bem definidas, como faz Ralf Darlington, por exemplo [1].

Enquanto Darlington minimiza a influência do anarquismo no sindicalismo revolucionário e sugere que o marxismo representa o núcleo de sua doutrina [2], o que é factualmente errado, Schmidt e van der Walt por parte deles adotam a atitude oposta e sustentam que o sindicalismo revolucionário é apenas uma variante do anarquismo, o que é igualmente contrário aos fatos.

O sindicalismo revolucionário não pode ser definido simplesmente como uma forma de sindicalismo radical: o conceito central deste movimento reside na idéia do “embrião”, ou seja a idéia de que o sindicato, hoje um órgão de luta pela melhoria das condições de vida da classe trabalhadora, será amanhã o embrião da reorganização da sociedade emancipada, uma idéia expressa de forma límpida na Carta dos Amiens votada durante o congresso da CGT de 1906 : “O sindicato, hoje um grupo de resistência será, no futuro, um grupo de produção e redistribuição, a base da reorganização social”.

Esta idéia já havia sido formulada dentro da Primeira Internacional, notadamente por César de Paepe [3] e Bakunin, e desenvolvida em detalhes por Pierre Besnard em Les syndicats ouvriers et la révolution sociale (Os sindicatos de operários e a revolução social).

A aceitação ou rejeição deste princípio define uma pessoa como um sindicalista revolucionário. Portanto, com relação à questão: “Foi Kropotkin um sindicalista revolucionário”?, deve se concluir que um autor que só circunstancialmente apela à ação sindical não pode ser definido como um sindicalista revolucionário.

Na verdade, havia muitos anarquistas ativos no movimento sindicalista que não se declararam sindicalistas revolucionários. Luigi Bertoni, um ativista suíço, é um dos exemplos mais conhecidos. Existia também uma importante franja do movimento anarquista que rejeitou a ação sindical [4]

Além disso, esta abordagem “anarco-cêntrica” do sindicalismo revolucionário ignora toda uma parte da história da formação deste movimento: a existência de militantes que não vieram do movimento anarquista. Houve socialistas (portanto, marxistas) dentro da CGT francesa que aceitaram a idéia de “embrião”. Estes fatos são obliterados pelos partidários de um sindicalismo revolucionário percebido como uma “variante” ou “estratégia” do anarquismo.

Os autores que limitam o termo “sindicalista revolucionário” as pessoas que preconizam a participação de anarquistas na atividade sindical evitam definir o que é sindicalismo revolucionário, ou pelo menos permitem as definições mais confusas e rebuscadas. O conceito é diluído em uma argumentação cuja imprecisão é aumentada pela introdução de um novo termo, o de “sindicalismo de intenção revolucionária”, o que não significa muito, e o que aumenta a confusão. Um conceito que tem algum sucesso entre os anarquistas sul-americanos.[5]

O caso de Bakunin é bastante simples na medida em que ele foi um anarquista somente durante os últimos oito anos de sua vida, durante os quais ele desenvolveu dentro da Primeira Internacional um pensamento e uma atividade que pode ser descrita como uma antecipação do sindicalismo revolucionário [6].

Seria mais correto dizer que foi uma antecipação do anarco-sindicalismo na medida em que suas concepções sobre a existência de uma organização de massa foram acompanhadas por uma reflexão sobre a existência de uma organização restrita de revolucionários que dobrou a organização de massa — a Aliança Internacional para a Democracia Socialista — uma questão que não é levantada no sindicalismo revolucionário [7]

Alguns autores como Gaston Leval se referem a Bakunin como o “fundador” do sindicalismo revolucionário [8]. Apesar das semelhanças óbvias entre os pontos de vista de Bakunin em 1870 e as práticas do sindicalismo revolucionário trinta anos depois, tal afirmação me parece historicamente infundada e anacrónica.

Durante sua longa “carreira” de ativista, que durou quase cinqüenta anos, Kropotkin experimentou uma sucessão de contextos diferentes: houve muitas flutuações em suas posições sobre questões de estratégia e organização e ele expressou opiniões que evoluíram ao longo do tempo. Assim, suas idéias sobre “propaganda por ação”, inicialmente inspiradas por sua experiência com o Narodniki russos e o grupo Chaikovsky, evoluíram para um maior interesse no movimento operário. Há, sem dúvida, passagens em Kropotkin nas quais ele pede aos anarquistas que intervenham no movimento sindical. A questão é se estas chamadas são suficientes para defini-lo como um “sindicalista revolucionário”, uma tentação na qual caem alguns autores.

Um exame de suas posições mostra períodos alternados quando o movimento sindical não desempenha nenhum papel em seu pensamento e outros quando o faz. Deve-se notar também que o sindicalismo revolucionário não desempenha nenhum papel nos principais escritos de Kropotkin, mas que sua forma revolucionária é reivindicada circunstancialmente em sua correspondência ou em endereços aos trabalhadores.

Com menos freqüência, há períodos em que ele atribui ao sindicato, ou em geral à organização dos trabalhadores, uma função que vai além da simples defesa dos interesses imediatos dos trabalhadores. Algumas raras passagens de seu trabalho mostram que ele às vezes subscreveu a tese central do sindicalismo revolucionário, ou seja, a idéia de que a organização sindical constitui o embrião da reconstrução da sociedade de amanhã: “as organizações operárias para a produção, a distribuição e a troca devem tomar o lugar da exploração capitalista e do Estado existentes, e que é o dever e a tarefa das organizações operárias desenvolver a nova forma da sociedade.” [9]

Estamos aqui no coração da doutrina do sindicalismo revolucionário. É significativo que as poucas incursões de Kropotkin no centro desta doutrina são sempre em momentos de agitação social: seu artigo foi escrito durante a ”Grande Agitação Operária”, que foi um período de violenta revolta operária entre 1911 e 1914 no Reino Unido.

É significativo que tais posições (pouco freqüentes) geralmente coincidiam com períodos de conflito social nos quais o movimento sindical estava em evidência, ou quando os congressos sindicais mostravam que a corrente revolucionária estava fazendo avanços significativos. Esta alternância de ausência e presença do sindicalismo no pensamento de Kropotkin não é suficiente, na minha opinião, para qualificar Kropotkin como um “sindicalista revolucionário”.

Max Nettlau, que estava em correspondência regular com Kropotkin, dá em sua História da Anarquia algumas indicações sobre sua relação com o sindicalismo (Nettlau fala de sindicalismo, não de sindicalismo revolucionário): ”As simpatias sindicais de Kropotkin são muito exageradas”. [10]

Por sua parte, Caroline Cahm escreve de seu lado que ”Kropotkin não parece ter compartilhado a convicção de Bakunin de que as idéias revolucionárias do povo poderiam ser desenvolvidas pela atividade sindical”. [11]

É no final de sua vida, na época da revolução russa, que Kropotkin tomou a posição mais clara a favor do sindicalismo: certamente não é uma coincidência que naquela época um importante movimento anarco-sindicalista tivesse se desenvolvido na Rússia enquanto o velho revolucionário estava em conflito com o movimento anarquista “específico”. Portanto, a questão é se os temas específicos do sindicalismo revolucionário, e em particular a idéia de que o sindicato não é apenas o órgão da luta diária, mas o embrião da sociedade futura, são alusões circunstanciais em seu trabalho ou se eles permeiam seu pensamento a ponto de torná-los um elemento fundamental, como foi o caso de Bakunin durante seu (curto) período anarquista. Pode-se assumir que os flertes de Kropotkin com o ponto de vista sindicalista revolucionário foram reações a eventos externos, e não constituíram o núcleo, a base doutrinária de seu pensamento.

Também será necessário examinar até que ponto os militantes anarquistas e sindicalistas de seu tempo se referiram a Kropotkin. Kropotkin é uma grande referência no movimento anarquista francês, mas curiosamente, alguns dos principais historiadores do movimento anarquista francês que entrevistei [12]. Ficaram muito surpresos com a idéia de uma aproximação entre ele e o sindicalismo revolucionário. Talvez devêssemos então nos perguntar por que os autores de língua inglesa (seguidos pelos autores latino-americanos) estão tão interessados em fazer esta conexão, enquanto na França, que foi de certa forma o berço do sindicalismo revolucionário, esta idéia parece incongruente.



Notes :

[1] Ralf Darlington, Radical unionism: The Rise and Fall of Revolutionary Syndicalism, Haymarket Books, 2013@µ, ou se adota a abordagem minimalista de definir como sindicalista revolucionário qualquer anarquista que adere ou sugere aderir a um sindicato, como fazem Michael Schmidt e Lucien van der Walt µ@Michael Schmidt e Lucien van der Walt, Black Flame, AKPress, 2009.

[2] Esta tese também é encontrada em George Sorel

[3] César de Paepe, « Les institutions actuelles de l’Internationale au point de vue de leur avenir”, cf. Bakounine, Œuvres, éd. Lebovici, tome III, appendice III, p. 255-256. Cf. Le Progrès du Locle, n° 9 du 1er mars 1869, l’article “L’Internationale et ses institutions de l’avenir”.

[4] Edilene Toledo cita muitos exemplos de anarquistas brasileiros que condenaram a ação sindical: Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário: trabalhadores e militantes em São Paulo na Primeira República, Editora Fundação Perseu Abramo.

[5] Cf. René Berthier, Sobre “sindicalismo de intenção revolucionária”, http://monde-nouveau.net/spip.php?article864

[6] Cf. Bakunin, “Protestation de l’Alliance”

[7] René Berthier, Bakounine, masses et minorités révolutionnaires”, http://monde-nouveau.net/spip.php?article586

[8] Gaston Leval, “Bakunin, fundador do sindicalismo revolucionário”, Editora: Imaginário

[9] Kropotkin, ”Sindicalismo e anarquismo”, https://freedomnews.org.uk/2021/02/22/kropotkin-syndicalism-and-anarchism/

[10] Max Nettlau, minha tradução de La Anarquía a través de los tiempos, Barcelona 1933.

[11] Caroline Cahm, Kropotkin and the Rise of Revolutionary Anarchism 1872-1886. Cambridge University Press, p. 241.

[12] Daniel Colson, Philippe Pelletier, Renaud Garcia, Frank Mintz, Guillaume Davranche, Gaetano Manfredonia